Por Lisandra Alves Laurentino
Durante muitos anos, a atividade física foi vista apenas como estratégia para emagrecimento/hipertrofia ou prevenção de doenças. Hoje, entretanto, a ciência mostra que seus benefícios vão muito além do corpo. Exercitar-se modifica o funcionamento do cérebro, melhora funções cognitivas, fortalece a saúde emocional e desenvolve competências essenciais para quem ocupa posições de liderança.
Mas afinal, por que tantos líderes de alta performance fazem do exercício uma prioridade? Você já parou para pensar sobre isso?
A mulher que lidera precisa de energia, não apenas de competência
Existe uma ideia de que liderança é construída apenas por conhecimento técnico, experiência e habilidades de gestão. Mas quem ocupa posições de liderança sabe que isso é apenas parte da equação.
Liderar exige presença. Exige tomar decisões importantes mesmo em dias difíceis, conduzir equipes em cenários de incerteza, lidar com conflitos, manter a inteligência emocional e, muitas vezes, equilibrar diferentes responsabilidades pessoais e profissionais.
Para muitas mulheres, esse desafio é ainda mais complexo. Além das demandas da carreira, elas frequentemente conciliam papéis familiares, sociais e domésticos, o que pode reduzir o tempo dedicado ao autocuidado. Nesse cenário, a atividade física deixa de ser um compromisso estético e se torna um recurso para preservar saúde, energia e capacidade de liderar.
O cérebro da mulher também precisa ser treinado
Quando pensamos em exercício físico, normalmente imaginamos músculos mais fortes ou um melhor condicionamento cardiovascular. Mas as adaptações mais relevantes para uma líder acontecem no cérebro.
A prática regular de exercício físico aumenta a produção do Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF), uma proteína que favorece a formação de novas conexões neurais, melhora a memória, a capacidade de aprendizagem e as funções executivas — habilidades essenciais para quem lidera equipes e toma decisões diariamente.
Em outras palavras, cada treino também representa um investimento na clareza mental.
Liderar sob pressão exige equilíbrio emocional
A rotina de uma mulher em posição de liderança é marcada por decisões rápidas, reuniões, metas, negociações e resolução constante de problemas. Esse cenário favorece a ativação contínua do sistema de estresse.
O exercício físico atua como um regulador desse processo. Ele reduz os níveis de cortisol, estimula a liberação de endorfina, serotonina e dopamina e contribui para uma resposta mais equilibrada diante dos desafios.
Não significa eliminar o estresse, mas aumentar a capacidade de enfrentá-lo com mais lucidez.
Treinar fortalece uma competência pouco discutida: a autoliderança
Antes de liderar equipes, projetos ou empresas, existe uma liderança silenciosa: aquela exercida sobre si mesma.
Cumprir um treino mesmo quando a agenda está cheia, manter constância mesmo sem motivação e aprender a respeitar os próprios limites e desenvolvem habilidades que também aparecem no ambiente profissional:
● disciplina;
● consistência;
● capacidade de planejamento;
● resiliência;
● gestão do tempo.
O exercício físico não cria essas competências do zero, mas oferece um espaço prático para cultivá-las.;
Quando uma mulher se escolhe, ela não está escolhendo apenas a si
Existe uma culpa silenciosa que acompanha muitas mulheres quando dedicam uma hora do dia para cuidar de si.
Como se esse tempo fosse um privilégio.
Na verdade, é um investimento.
Uma mulher que cuida da própria saúde física e mental amplia sua capacidade de estar presente nas diferentes áreas da vida. Ela ganha mais energia para liderar, mais clareza para decidir e mais equilíbrio para enfrentar momentos de alta demanda.
O autocuidado, nesse contexto, não representa egoísmo. Representa a sustentabilidade.
A liderança feminina não depende apenas de competência técnica, mas da capacidade de sustentar essa competência ao longo do tempo. E isso exige energia física, saúde emocional e clareza mental. A ciência já demonstrou que a atividade física fortalece exatamente essas capacidades. Por isso, para a mulher que lidera, o exercício não deve ser visto como o que sobra depois de todas as obrigações. Ele pode ser uma das bases que tornam possível exercer uma liderança mais saudável, consistente e humana.
No fim, enquanto pesquisava tantos artigos científicos para escrever sobre liderança e alta performance, de uma forma clara e menos técnica percebi que a minha maior referência sempre esteve na prática.
O esporte sempre fez parte da minha vida. Nunca fui atleta profissional. Sempre fui uma atleta amadora, daquelas que treinam porque acreditam no processo, porque encontram no movimento um lugar de equilíbrio e porque entendem que algumas das maiores transformações acontecem muito antes de jogar a bolinha na parede ou cruzar uma linha de chegada.
E talvez seja justamente por isso que o esporte tenha me formado tanto.
Foi treinando que aprendi que constância vale mais do que intensidade. Que resultados não aparecem da noite para o dia. Que disciplina é continuar mesmo quando a motivação não aparece. Que alguns “nãos” são necessários para honrar os “sins” que realmente importam.
Hoje vivo um ciclo de preparação para os 21 quilômetros. E, sinceramente, o maior desafio não são os quilômetros. É escolher, todos os dias, priorizar o treino mesmo com uma agenda cheia. É organizar a rotina, abrir mão de algumas coisas e entender que cuidar de mim não pode ser a última tarefa da lista.
E essa talvez tenha sido a maior lição que a corrida me deu.
Aprender a dizer “sim” para mim.
Porque nós, mulheres, crescemos aprendendo a cuidar de todos. A atender expectativas, resolver problemas e estar disponíveis. Mas poucas de nós aprendem, desde cedo, que também precisamos ocupar um lugar de prioridade na nossa própria vida.
O treino deixou de ser apenas um compromisso com o meu corpo. Ele se tornou um compromisso com a mulher que eu quero ser.
Cada corrida reforça em mim a disciplina que levo para o trabalho, a resiliência com que enfrento os desafios, a paciência para respeitar os processos e a confiança de que a evolução acontece um passo de cada vez.
Hoje, quando incentivo outras mulheres a treinarem, percebo que meu trabalho nunca foi apenas sobre exercício físico. É sobre mostrar que elas também podem se escolher. Que uma hora dedicada à própria saúde não é egoísmo, é investimento. Que dizer “não” para algumas demandas pode ser exatamente o que permite dizer “sim” aos próprios sonhos.
Se existe algo que o esporte me ensinou, é que a liderança começa na forma como conduzimos a nossa própria vida.
E talvez a maior vitória nunca seja a medalha dos 21 quilômetros. Talvez seja chegar lá sabendo que, durante todo o caminho, eu aprendi a não me abandonar.
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Lisandra Alves Laurentino é formada pela UNI-RN em Educação Física – 2020, Pós-Graduada em Biomecânica aplicada ao Exercício Físico pelo Instituto Valorize e Pos-graduada em Saúde da Mulher pela Personal trainer Academy Personal Trainer. Especialista em treinamento para mulheres – idosos – reabilitação de lesão. Atendimento presencial e consultoria online. Responsável Técnica Selfit
